A emocionante história do morador de rua mais famoso do bairro mais
caro de Brasília
Ele
chegou de mansinho, foi ficando e conquistou as pessoas. Criou um
vira-lata como se filho fosse. Morreu de frio, numa madrugada, ao
lado do fiel companheiro, que chorou e o velou até o
fim
Marcelo Abreu - Correio Braziliense
Ele era um lorde maltrapilho. E ainda assim
continuava lorde. Bebeu tudo que pôde. Bebeu até cansar de beber. E
de viver. Morreu de frio, ao relento, perto de uma árvore. E ainda
assim morreu lorde. E não há poesia em dizer isso. Como alguém,
maltrapilho, que morre de frio, pode ser lorde? Good
Night era. E da melhor qualidade. Era um lorde às avessas,
sem terno bem cortado, champanhe francês, charuto ou carro
importado. Era um homem que ainda emocionava aquela gente rica, de
pouca conversa com estranhos e quase sempre apressada do nobre
Sudoeste.
O
maltrapilho Good Night os fez pensar em si mesmos.
E fez essa gente - dos que moram ali aos que trabalham na região -
se render a um homem que andava com um cachorro vira-lata pelas
ruas do bairro, esnobava no inglês e lia jornal achando que todas
as notícias eram iguaiszinhas. Good Night sabia o que dizia. Era um
show. Morreu há um mês, enquanto dormia, naquela semana em que as
madrugadas chegaram a registrar entre nove e 12
graus.
The
Dog, como ele chamava o cão que o velou até fim, chorou. Foi
difícil tirá-lo de junto do corpo do amigo. Mas, afinal, quem era
este tal de Good Night? Pouco se sabe. E tudo que se sabe foi o que
ele permitiu saber. Há pelo menos 14 anos, aquele homem chegou ali.
Chegou do nada, vindo do nada. O bairro nobre começava. Good Night
acampou na região. Junto, trouxe uma garrafa de cachaça e um jornal
debaixo do braço - companheiros inseparáveis.
O
jornal não servia de cobertor. Good Night o lia com interesse muito
particular. Aos poucos, mesmo que a gente apressada não o visse,
ele foi se chegando. Cumprimentava as pessoas, mesmo que a maioria
não respondesse. Ria para elas, quando sentia vontade de rir. E fez
do bairro a última morada. A voz grossa e meio rouca, sua
característica mais marcante, não combinava com aquele tipo
mirradinho. Good Night não media mais que 1,60m.
O
homem que bebia todo dia obrigou aquela gente a percebê-lo. Ele
podia usar o banheiro dos prédios comerciais. Quando estava no auge
dos devaneios etílicos, danava-se a falar inglês. E sacava, quando
passava para cumprimentar as pessoas, suas frases de efeito:
“Good Night, boys!” Ou, se era pela manhã: “Good
morning, girls! I love you, girl!” Pedia licença, em inglês:
“Excuse me”. E agradecia, quando lhe davam alguma
coisa, também na língua do Tio Sam: “Thank you! God reward
you!” (Deus lhe pague).
Não tardou para ser chamado de Good Night. E
Good Night começou a quebrar o gelo daquela gente do nobre
Sudoeste. Aos poucos, passou a ser visto com condescendência. Sua
presença já não causava tanto incômodo. Nem medo. Nem estranheza.
Nem ameaça. Quando estava sóbrio, geralmente só pelas manhãs, era
de poucas palavras. Quase mudo. Lia jornal, revista, o que chegasse
às suas mãos, sempre dada pela caridade alheia. E ficava horas
pensando. Good Night gostava de ficar com ele
mesmo.
The
Dog
O
Sudoeste cresceu. Good Night continuou ali. A avenida comercial era
toda sua - especificamente as quadras 102/302 e 103/303. O mendigo
virou morador do bairro mais caro da terra de JK. E, creiam, o mais
popular. O mais divertido. O mais verdadeiro. Caiu no gosto das
pessoas. Good Night amoleceu corações. Chegaram outros moradores de
rua. Ele tornou-se uma espécie de líder. Todos lhe obedeciam. Ele
nunca permitiu desordem e confusão. Levou isso até o
fim.
Há
cinco anos, um cão vira-lata, feioso, de pelo vermelho, cheio de
pulga, apareceu ali. Não se sabe como. Afeiçoou-se a Good Night.
Ambos se adotaram. Um cuidou do outro. Um era a referência do
outro. Lorde como era, Good Night batizou o animal. Chamou-o de The
Dog. E, creiam de novo, ensinou o vira-lata a sorrir e cumprimentar
as pessoas levantando a pata.
O
cachorro logo aprendeu a elegância do no. Só atravessava na faixa
de pedestre. Não entrava nas lojas. Não fazia cocô perto da gente
elegante. E nunca, nunca brigou na rua. Na madrugada em que Good
Night morreu, The Dog cuidou dele até que os bombeiros chegassem.
Lambia-o. Mexia para que ele levantasse dali. Hoje, vive com uma
menina moradora de rua, que cuida dele porque prometeu isso a Good
Night.
Good
Night bebeu até o dia em que morreu. “Oito dias antes da
morte, ele me disse que ia dar um tempo, que a bebida tava fazendo
mal”, conta o cearense Antônio Aurismar Pimenta, 39 anos, o
Mazinho, segurança do Edifício Rhodes Center 1, na comercial da 103
do Sudoeste. Ele trabalha na região há 14 anos. “Comecei como
açougueiro. E, desde que vim pra cá, conheço o Good Night. Ele era
uma pessoa muito boa, todo mundo gostava
dele.”
Saudoso,
Mazinho lembra as tiradas pitorescas de Good Night: “Ele
gostava de falar umas coisas em inglês. Era inteligente, parecia
ser estudado. Sempre beijava a mão da síndica e chamava-a de
condessa. Nunca perturbou a vizinhança e ainda exigia que os outros
moradores não perturbassem também. Ele era o xerife de todos
eles”.
O
porteiro Eliézio Cardeal, maranhense de 38 anos, há 13 naquele
endereço, elogia o carisma que Good Night despertou nos moradores e
na gente que trabalha na região: “Do rico do pobre, todo
mundo gostava dele. Era inteligente. Falava de política melhor do
que os políticos. E me explicava muita coisa. Vai fazer falta por
aqui”.
Pouco
se sabe de Good Night. Desconfia-se que ele seria carioca. Pelo
sotaque cheio de ‘s’. Contam que ele teria parado na
rua por conta de um acidente de carro, onde morreram a mulher e os
dois filhos. Seria ele o motorista. Há quem tenha ouvido que ele
teria sido funcionário da falida Encol. Que uma desilusão amorosa o
levou às ruas. Que seria formado em direito. E que teria parentes
no nobre Sudoeste, na 102.
Pouco
importa o que Good Night teria sido. Ele foi o lorde do Sudoeste.
Fez gente tão distante dele olhar pra ele. E isso já seria seu
melhor currículo. “Ele falava umas línguas que eu não
entendia”, espanta-se, até hoje, o lavador de carros Maikon
Michel Santos, 21 anos. E emenda: “Mas era humilde com as
pessoas”.
Na
Confeitaria Monjolo, na 103, as funcionárias tinham ordem para dar
um salgado pra ele. “A dona deixava. Ele era boa
pessoa”, diz a caixa Cristiane Santos, 21 anos. Iolanda
Lucena, 20, balconista da padaria Pães e Vinhos, tenta imaginar o
que levou aquele homem a perder-se dele mesmo. “A gente
percebia que teve uma condição boa na vida. Talvez sofreu uma
decepção, teve depressão”.
No
restaurante Nautilus, Good Night fez muitos amigos. E foi
responsável por muitas gargalhadas.“Ele só não gostava de
madames. Principalmente as peruas. Imitava todas elas e a gente
morria de rir. Era uma graça”, lembra a atendente Elma
Veloso, 25 anos. “Tinha gente que chamava ele para se sentar
e conversar. Uma doutora que trabalha aqui fazia muito isso”,
diz o garçom Fábio Bonfim, 18.
José
Lucimar Ribeiro, 31 anos, também atendente, admirava a honestidade
dele: “Ele nunca pedia nada. Quando pedia, era um real. E
falava: ‘É pra comprar cachaça mesmo. Não é pra comida,
não’. Ele nunca enganou ninguém”. Na tarde de ontem,
Otalino Firmino, 63, morador da 304, soube da morte de Good Night
no supermercado São Jorge. Levou um susto: “Caraca, ele
morreu?”. Era uma figura. Ia comprar pão e a gente
conversava”.
Good
Night era tão Good Night que nunca aceitou ir para abrigo do
governo. “Tentamos várias vezes, mas ele não aceitava”,
conta a ex-diretora de serviços da Administração Regional do
Sudoeste, Ivana Natividade, 46 anos, que cuidava do projeto Anjos
da Noite. E elogia: “Ele tinha cultura, era diferente dos
outros”.
O
dono do chique restaurante San Lorenzo, na 103, Carlos José de
Moura, 47, tornou-se uma espécie de protetor de Good Night, um
homem de 60 anos, cabelos brancos e pele clara castigada pelo sol
do Planalto Central. “A maneira de se expressar dele me fez
perceber que ele tinha conhecimento. A concordância verbal era
perfeita.” Carlos procurou descobrir por que aquele homem
havia parado na rua e se largado tanto. “Tentei resgatar o
passado dele, mas ele me dizia que não gostava de falar disso.
Talvez o mistério desse passado seja o início dessa fuga. Não quis
mais entrar no mérito.”
Good
Night contou a Carlos José que se chamava Frederico. Naquele dia,
Fred - como os mais íntimos o chamavam - entrou no seu restaurante
e comeu sempre que quis. “Uma vez, um playboy acusou o Fred
de ter roubado o CD-player do carro dele. Foi lá, no saco de
latinha que ele carregava, e chutou tudo. Eu me meti e disse que
ele jamais teria feito aquilo. E não fez.”
Ao
lado de Carlos José, Good Night sentiu-se forte. Encarou o playboy
do Sudoeste e devolveu: “Você tá pensando que não conheço as
leis que me protegem?” E continuou, cheio de si: “Vou
agora ao seu carro, anotar a placa e dar pro meu advogado. Ele vai
te procurar”. Dá-lhe, Good Night! O playboy? Saiu sem dizer
mais nada. Envergonhou-se do papelão e vazou. “Naquele dia,
ele me disse: ‘Você me fez sentir gente’. Nossa amizade
nasceu ali.” Emocionado, o dono do restaurante badalado
admite: “Só me arrependo de não ter resgatado a história
dele”. E agradece: “Ele me ensinou que a vida tava
sempre boa”.
E
assim Good Night viveu. Encantou quem se deixou ser encantado. Fez
piada de si mesmo. Riu dele e da hipocrisia dos muitos ricos.
Ensinou The Dog a atravessar só na faixa, a não sujar o chão e a
cumprimentar as pessoas. Bebeu todas. Fez uma gente olhar pra ele.
E, numa madrugada, morreu de frio, ao lado do seu fiel companheiro,
que chorou sua morte.
Viva, Good Night!
God
bless him (Deus o abençoe!)
http://setecandeeiroscaja.blogspot.com/
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